Astrologia: novos rumos?


A palavra "astrologia" é, antes de mais, uma palavra equívoca (do ponto de vista da cultura popular actual) e excessivamente datada (ou tradicional) se a perspectivarmos no âmbito do conhecimento contemporâneo, de que são exemplo a física, a biologia ou as ciências humanas. Por isso, houve autores que sugeriram novos termos para o mesmo leque de investigação, tais como: cosmobiologia, astrobiologia, cosmopsicologia, astrosofia, etc., o que apenas demonstra que a palavra "astrologia" é muito mais um espartilho (de que os investigadores mais sérios se querem libertar) do que uma vantagem para quem trabalha numa área de estudo e pesquisa tão ampla.

A astrologia de figurino ocidental, como saber organizado pelas escolas de sabedoria da Antiguidade (sobretudo greco-egípcia, romana e árabe) parte de um modelo de correspondências tipo Cosmos-Homem-Natureza (que viria a traduzir-se na fórmula Zodíaco-Planetas-Casas) embora como prática social este acabasse por se transformar progessivamente numa técnica redutora, essencialmente qualificativa (propriedades "mágicas" das coisas ditas sub-lunares), previsional (prognóstico de conjuntura) e, no pior dos casos, divinatória (futurologia diversa).

Esta prática de tendência redutora, pretende estabelecer-se através de uma leitura codificada, especulativa e quantas vezes aleatória (encorajada pelas diferentes sociedades e culturas não sábias que a praticaram) das relações interactivas de dois arquétipos: o Céu e a Terra. Mas é sabido que todo o sistema de referência - geocêntrico - nada tem que ver com a realidade propriamente dita. Trata-se apenas de uma arquitectura simbólica que pressupõe a unidade e a interactividade fundamental de todas as coisas e, portanto, do próprio modelo de referência. Resta, pois, estabelecer com rigor experimental as leis gerais que regem a relação entre representação simbólica e realidade. O que, apesar de numerosas tentativas, ainda não foi satisfatoriamente conseguido. Ou seja, hoje tornou-se possível determinar com extrema precisão a trajectória de uma nave espacial ou de uma quantidade ínfima de matéria-energia num acelerador de partículas, mas essa mesma precisão já não se verifica quando se trata de determinar o "potencial" e a "trajectória" de um indivíduo relativamente à sua vida, aliás uma das pretenções da astrologia tradicional e mesmo das escolas mais recentes.


Permanece a pergunta: o saber astrológico será, como sistema analógico que é (no sentido de correspondência, analogia e metáfora), um dos raros instrumentos (por enquanto não científicos) de que dispomos para explorar metodicamente a "organicidade" do Cosmos e as respectivas implicações e interacções em termos de desenvolvimento consciente e até mesmo supraconsciente? Se o é, repetimos, resta estabelecer com rigor experimental as leis gerais que regem a relação entre representação simbólica e realidade, pelo menos tal como esta se apresenta ao nosso cérebro, aos nossos cinco sentidos e à sua amplificação tecnológica. Ou talvez lhe devamos acrescentar os dados obtidos através de uma nova percepção (por via de um novo processo cognitivo) talvez mais próxima de um modelo transpessoal e do paradigma emergente das actuais ciências de ponta. O que quer dizer que seria necessária uma revolução total do actual paradigma astrológico (e, portanto, dos actuais modelos explicativos, muitos deles verdadeiramente
"arqueológicos"), o que está longe de ser conseguido.

Mas não seria essa,afinal, a nova e prioritária função daqueles que seriamente se interessam por tal paradigma, único no seu género?

Vitor Quelhas

 


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